sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Perfume velho

Fantasma de olhos glaucos,
insistes em ficar sob minha pele,
em contaminar minha mente
com teu ácido fluído.

Agüenta o coração as gotas amargas
do teu perfume velho,
que amarga o sangue,
e amarga até o ar.

Já sei que não será mais
a penumbra em que tuas pernas
descansavam sobre aquela cama
que já não está.

Já não serão minhas mãos roedoras
na crosta nívea de tua pele.

Já não será tua calma

sobre meu peito sincero.


São Paulo, julho de 2003

Nosso jogo

Teu frágil corpo
de magra gata
procurava seu jogo
no banco da praça.

Teu jogo de menina imortal
nos pátios do mundo.

Teu jogo que é meu jogo
em teu corpo de loiro pêssego.

Teu jogo em meu corpo acordado
por um verão portenho.

Tuas pernas em meu regaço
sobre o banco da praça.

Nosso lábio em dança culminante
de nosso ritual de encontro.

Esgrimimos os olhares
em luta passional.

E floresce de teus peitos
esse sonho de uma noite de verão.


Buenos Aires, 1999

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A poesia pulsa encarnada

A poesia pulsa encarnada,
derrama-se no corpo,
nada em lágrimas,
voa em risos.

Pinta a imagem de um mundo,
lenços de noites
e luas sublimes.

Risca a navalhadas
as mesas dos cafés.

Canta como pássaros
de guardanapos de papel.

Alimenta-se de cada polegada do mundo.
Não conhece leis nem deuses
além dos de si mesma.

Flagela-se, mata-se,
nutre-se de feridas.
Vive suas agonias,
morre seus versos,
nasce dos rios
minados pelo devir.

É paisagem viva
do vale onde o homem alastra
sua bagagem de sombras,
seus amores podados.

Afunda-se num café
negro de asfalto
desafiando a faca
o gume de uma silhueta na fumaça.


Guillermo Abraham
São Paulo, julho de 2003


Mediterrâneo

Um poeta catalão cantou às praias que afagas em tua dança. E tu danças em tua pista entre a velha Europa e a tórrida África. Hoje, como duas...